sábado, 5 de dezembro de 2015

Confesso.

Ontem eu espanquei, violentamente, aquele outro eu por ser tão covarde. Enojei-me de me assistir frágil daquela forma naquela outra figura. "Tu devias voltar ao oblívio que te coloquei", do outro lado do espelho reside essa figura mentida até a existência ao qual me excita simplesmente ao olhar... Talvez seja o sadismo exacerbado ou a frieza calculada de cometer pederásticos sacrifícios, mas ele (ou eu), crucificou aquela figura frágil (e minha), esfolando-a a pele. O que restaram-lhe foram as carnes, os músculos frouxos, os ossos. Completamente desnudo, jogado sobre os restos de carne porcamente estripados. Imagino o quão doloroso deve ser sentir o sangue coagulando pelas extremidades. Respirar torna-se uma tortura. Mover-se é doloroso.



Mas eu me sinto tão excitado.



Difícil é conter essa ereção furiosa, dura, causada pelo sacrifício. Teu sofrimento me excita do outro lado do espelho.  Rijo, contra minha mão, eu gemo aos prazeres de nos ver morrendo, mesmo que, em consciência, eu saiba que mesmo através da morte, no final dessa transa apenas sobrará a mim, e não seremos mais uma consciência ampla. Excita-me o teu sabor, imaginar o gosto do teus lábios esfacelados desmanchando-se contra os meus e o sabor do teu sangue que, já misturados com a tua saliva, invadem a minha língua. A consistência do teu toque, quase liquida, banhando meu corpo. 



Nunca estivemos tão unidos.


Confesso que empatia nunca foi meu forte e que honro teu restos pelo respeito ao teu sacrifício. Não que tenham sido dadas muitas escolhas, mas imagino que gestos de nobreza devem ser exaltados.  E é tão belo, vendo agora, o teu tórax pulsando por resistir ao clamor daquela que está ali, sentada no sofá, com o clitóris dentre os dedos. Ou seria o meu clamor? Não quero incomoda-la visto a falta de intenção em se juntar a brincadeira. "Seremos apenas eu e eu mesmo, está bem?", ela não responde, mas a mão se fecha forte, como que abraçasse terminantemente aquele membro.  O teu corpo se desmancha contra o meu e já sinto tuas costelas, individualmente, chocando-se contra a minha pele.  Meus dedos percorrem teu dorso que, pouco a pouco, dissolve-se em vértebras. Tua cintura se resume a uma bela crista e tu, já tão feito de ossos... E eu já tão próximo do êxtase.



Por alguns instantes te imagino dentro de mim.



Sinto meu corpo convulsionar dentre tuas carnes diversas e ossos já esmigalhados sobre meu corpo.  E como que pronto para gozar, desloco-te o maxilar e fluo pelo teu vazio, escorro por onde houve uma traqueia e mergulho contra o chão. Me sinto pronto e, ao mesmo tempo, me sinto morto. Ela levanta daquele sofá, me abraça, suas mãos escorrem pelo meu peito, tocam meu pênis ainda melado do gozo e, então, ela prova do meu esperma. Nada diz, seu corpo é como o som se propagando no vácuo. O rosto não denuncia nenhuma satisfação.  Nada. Mergulho, então, de volta ao espelho, que já não reflete nada.




Por ter matado a mim.

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