sexta-feira, 26 de julho de 2013

Nós (Os Cães)

A essa hore eu estaria deitado em alguma cama qualquer, usando uma roupa qualquer e com qualquer um... Sim, pois sem minha casa qualquer lugar é um lugar, e eu não estou em lugar algum. Seria mais uma noite daquelas: outro cara, outra cama, outro preservativo, talvez ele me pagasse uma bebida, talvez eu ganhasse 60 reais.  Talvez fosse bom, talvez machucasse – E ai eu diria: “para, por favor”, ou “vai com calma”, e ele me bateria e faria ainda pior...  Poderia ser gentil também e, nesse caso, eu me consideraria sortudo, sei lá...

Nessa noite, talvez, eu chamasse um, dois, três, de amor. É, eu diria que são belos, que são bons, que me comem direito, ou que são apertadinho para comer, que são... Suculentos? É, talvez eu amasse infinitamente infinitas pessoas, sentisse tantos calafrios que botasse um casaco e, talvez, meu coração batesse tão forte que quebrasse minhas costelas. É, talvez nessa noite eu amasse um milhão.

Fora de casa, todo amor é amor, não me importa a origem ou a duração: todo amor é amor.  Amar um Paulo, um André, amar uma Natasha, uma Alexandra... Um Leonor que se sente melhor como Michele, ou uma Michele prefere ser chamada de Willian. Sim, todo amor é amor, dure uma hora, dure uma noite.

De joelhos pedindo por afeição, como um gato – Não, como um cão. Sim, submisso e leal. Todo esse amor duraria por horas, horas suficientes para eu lembrar que me esqueci de perguntar pelo nome. E ai, quando cada qual tornar suas costas e seguir seu caminho, eu direi que amei alguém... Sim, “alguém”, incógnito, sem nome. Talvez sem rosto (eu nunca sei como estou), e ai os sentimentos vão ficar guardados naquele jarrinho pulsante.

E se esse amor durar por minutos a sensação será a mesma, será de satisfação imediata. “Criança, você quer aprender sobre o mundo?”, e eu diria “Não, eu só quero amar no presente. O presente que amo -  eu te amo”.  Nesse caso é o mesmo ciclo: um novo amor, outra cama, outro preservativo, talvez uma bebida, talvez 60 reais, talvez ele me bata – mas com certeza, eu o amarei... Não o amarei, eu o amo, no presente, enquanto durar.

De tanto bater, com tanto amor, meu coração aprenderá a bater rápido, e ele estará sempre pulsante e alegre, jovem, feito uma criança. São tantos amores, um coração que guarda todo o amor do mundo. E então eu me retiraria, voltaria para qualquer lugar e lá ficaria. Eu e o que amo, sempre no presente, pulsando gloriosamente meu corpo, meu falo e meu coração. Nessa noite talvez eu amasse pra sempre, nos infinito dos números, na duração da noite.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Milésimo estado da matéria.

Eu, de tantas outras coisas, quis ser o mar –  Hoje não sou água, hoje não sou onda.
Não sou peixe, não fluo, não sou molhada.
Hoje eu sou Terra, amanhã serei  Sol.
Nos teus braços eu sou o vento, e minha língua o anzol.
Nos teus lábios sou a isca, na tua mente, o pensamento.
No teu tronco, sou o peso, no teu pênis, o julgamento.
Nas tuas pernas sou o caminho, nos teus pés eu sou o céu.
Para as nuvens, sou casa
Em casa sou filho, sou mãe, sou irmão.
Em meu irmão sou o reflexo
No reflexo sou minha mãe
Nela, sou o agouro
E no agouro, sou solidão
Na solidão eu sou todas, e de todas, nenhuma
E nenhuma sou eu, onde todas estão
De tantas coisas que eu sou, sou tudo, menos eu.

Que o tempo me separe.

Eu não faço nada, eu não tenho planos
Já não tomo banho, não penteio os cabelos
Já não sinto frio
Já não faço a barba
já não faço amor, não sei o que fazer
Não espero mais
já não sonho mais,
já sinto calor
Já não sou mais eu, eu sou outro alguém e
Já me perdi
Já quis fugir,
já quis voltar, não sei onde ir
Já me iludi,
já me vivi, me inventei -  Eu sou outro eu, eu sou outro alguém,
Já não sou ninguém.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Nada além do mar.

Abri meus portões:
Alagando minhas planícies com lagrimas vermelhas
Aquele choro não vocal como vinho se tratou
Em vinho me tornei

Além das minhas colinas, nada havia se não o mar
Minha crosta houve por afundar
Meu cerne não se pôde ver
E o que ali restou, houve-se por esquecer.


As pesadas ondas refletiam o doce escarlate
E a espuma cantava o doce e pungente prazer
Nas costas do meu ser nada há
Nada além do mar.

Água foi o que desejei
Vinho, o que me tornei
Um oceano escarlate
De nada, só prazer.