domingo, 22 de novembro de 2009

Esse quarto será minha cova.

Senhorita Solaria olhava pela janela da torre mais alta onde residia, vendo seu reino em guerra. Pobre fiéis derramando sangue no campo de batalha, enquanto os clérigos rezavam e os arcanos eram hostilizados. Era para sua segurança, Lady Solaria não poderia sair de lá até o reino estar em paz...Ela morreria lá, a guerra duraria mais do que o esperado, cem anos...E Solaria viria o ultimo soldado cair em batalha.

Vivia solitária, mas nascera para governar, morrer não era opção. Recebia seus alimentos sem que abrissem a porta, respirava sem fazer barulho e amava sem nem ao mesmo pensar...E seu amado pareceria , o ultimo no campo de batalha, e seu sangue cobriria o coração de Solaria, que estava seco e calejado.

Em seu quarto ela lia, assistia a guerra, olhava para as nuvens... Sentia a brisa, fria, era sua única certeza, o vento que conhecia era frio e que morreria por amor. Ela esperou, enquanto estudava, ia das artes até as mais complexas das ciências e estudos teológicos. Sua companhia eram seus papiros, livros e anotações.

Lorde Raphael era seu nome, o nome gravado no coração de Solaria. Ela o amava, ele nem sabia direito quem ela era. Para ele todas as mulheres eram iguais, instrumentos fúteis de prazer, que além de engravidar, sabiam cozinhar e tecer, eram bruxas, ciganas ou donas de casa, nunca seriam dignas de governar, possuíam beleza que se esvaia com o tempo, assim como suas habilidades.

Solaria conhecia essa realidade, quem sabe isso era o que a fazia amá-lo? Quem sabe o fato desse amor ser impossível tornava o tão cobiçado? Ela não queria desistir dele, ela sabia que o amava, sabia que era o mais puros dos amores, sabia que ao deitar ela nele que pensava, que seus estudos eram para ser prestativa a ele, sabia que o céu desenhava seu rosto, que os pássaros contavam sobre seu amado, que o ar tinha seu perfume, sabia de tudo isso, e ao mesmo tempo não sabia de nada, não sabia o que ele sentia, não sabia o que pensava, não sabia onde estava. Quem poderia dizer qual dos soldados Raphael era? Todos vestiam armaduras escuras,estavam lavados em sangue ou caídos nas pradarias.

Raphael era capitão de uma das armadas, nunca pensaria em amor, só precisava da adrenalina da batalha, do poder que sua liderança propiciava, das diversas mulheres com quem transava sem nenhum compromisso. Ele não sabia que esses atos machucavam alguém, e mesmo que soubesse, não mudaria seu estilo de vida. Se ele causa dor a um, ele mata a outro, causar dor era algo normal. Foi corrompido por todas as sensações que lhe davam uma confiança inabalável. Era o preço pelo poder, nunca conheceria o verdadeiro amor.

Os anos iam passando, Solaria apenas observava, dia após dia, soldado a soldado caindo em campo de batalha, indo ao encontro de Deus (deus), ou de um descanso eterno. Essas mortes apertavam seu coração, traziam lagrimas aos seus olhos. A cada golpe de espada dado em um soldado, outro era dado em Solaria, que sentia como se cada um de seus súditos fosse à verdade Raphael. Estava tão cega de amor, seu povo não possuía mais importância.

A Guerra chegava ao fim, ano a frio passaram. Solaria viu o ultimo soldado parado na pradaria. Ele olhou para torre, seus olhos se chocaram. Solaria viu o soldado, o soldado a viu, e mesmo a distancia, seus olhos se chocaram. Solaria gritou “RAPHAEL!”, e ele caiu. Raphael sobreviveu até o final, até encontrar sua morte. Gostaria Solaria, que o Lorde morresse em seus braços, morreria a seus olhos. Solaria não agüentou ver seu amor partir, seu coração, vestido com a mais poderosa das armaduras, a esperança, havia ficado nu para o ultimo dos cortes, e o mais profundo.

Solaria Morreu, e dentro de seus olhos sobrou a lembrança de seu amado, seu único e maior amor durante todos esses anos. Poderia ficar junto a ele pela eternidade. Estava solitaria novamente, enganando sua mente com a sensação de estar junto de seu amado.

Ela sempre teve duas certezas: o vento que conhecia era frio, e que aquele quarto seria sua cova.