quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Tormento de Alessa

Em seus pensamentos ela se flagelava, questionando se o que iria fazer era mesmo certo, se era o que desejava, mas bem no fundo tinha essa certeza, cansou de ser “aquela garota”, a “quatro olhos”. Emily mandou para tumba seu passado e aceitou o pedido.

Dedicada, inteligente, sabia falar mais de três idiomas e tocar mais de cinco instrumentos, a pequena cidade de Vene havia se tornado pequena para tanto talento, mas quem Emily não recebia o reconhecimento de quem ela queria, de seus colegas. Talvez tivesse se afogado no saber para suprir suas necessidades, para ignorar a solidão.

Era o ano dos formandos de 2008 e ela era apaixonada por Jason, veterano e capitão do time de Hockey do colégio, mas ele nem a notava. Emily o queria muito, mais que tudo, mas sabia que não era sensual nem atrevida para combater as outras garotas, e quando ela pensava nisso, vinha à imagem da pior delas, Michelle.

A abelha rainha da popularidade, que havia escondido todos os traços de sua origem estoniana, tingindo os cabelos, usando maquiagem e lentes de contato, era como um afrodisíaco para os garotos, cansados das mesmas loiras com as mesmas peles brancas e olhos azuis e verdes. Michelle tinha cabelos extremamente lisos, escuros como a noite, olhos castanho-avermelhados, pele macia coberta por um pó que lhe dava aparência de bronzeado e estava sempre armada com seu batom vermelho fatal. Tinha tudo, a escola a seus pés, os pais eram escravos de suas vontades e, acima de tudo, tinha Jason. Michelle vivia o sonho de Emily.

Emily decidiu se tornar escrava das garotas populares. Começou dando um simples “oi” no corredor, em seguida foram as colas nas provas, temas de casa, trabalhos escolares. Não tardou e Emily estava entre as poderosas.

As abelhas não gostavam dela, pois parecia mais com um zangão do que com uma operaria, e assim, Emily começou a se perder como pessoa. Mudaram seu visual, suas roupas, moldaram seu comportamento e recriaram sua atitude. Emily havia morrido naquele momento, abandonando até mesmo o próprio nome. Decidiu se chamar Alessa.

Com a nova cara, sentia-se confiante, provocativa, poderosa a ponto de destronar Michelle, mal ela sabia que as operarias nunca abandonam a rainha.

O baile de formatura da turma de 2008 estava chegando, as garotas iriam juntas, com exceção de Michelle que iria junto a Jason. Alessa tinha arquitetado um plano, iria acabar com sua criadora na frente de todos, seria sua vingança por todo o menosprezo que sentiu por parte dela, e por fazer o coração rachar mais e mais a cada dia.

Na entrada da festa, Alessa e as meninas posaram para as fotos do anuário e se foram em direção a uma mesa, não levou muito tempo para Michelle e Jason chegarem. Era hora de por o plano em pratica.

As luzes escureceram, a banda começou a tocar e todos começaram a dançar, bem... Quase todos. Jason não fazia o tipo de garoto festeiro, não gostava de todo aquele som e Alessa ficou sentada junto a ele, sabia o que aconteceria quando o som começasse.

Conversaram por algum tempo, e quando Michelle parou de observar os dois, Alessa saiu do salão junto a Jason. O luar estava lindo, a lua cheia no céu, e as nuvens a rodeavam como insetos em um lampião. Ela estava tensa, mas aproveitou a situação para confessar seus sentimentos.

Quando Jason iria responder, surge Michelle entre os dois. Embora não tivesse cuidando, suas operarias estavam, afinal, uma rainha é sempre bem informada. Sabia dos sentimentos de Alessa por seu namorado, sabia o que planejava dês de o começo, estava só adiando, era hora de destruir a criação, dar um adeus ao Frankenstein que criou.

Os gritos da discussão entre as duas chamaram a atenção de todo o salão de festa, levando-os a irem verificar. Alessa nunca foi tão humilhada, e naquele momento, voltou a se sentir como Emily, e agir como tal. Ela fugiu.

Em casa se trancou no quarto, e por lá permaneceu. Nunca saberia o que Jason sentia por ela, pois não se deu mais tempo de vida,realizou o impensado, morrendo com uma overdose de anti-depressivos.

Jason amava Emily, odiava Alessa. Michelle era só o esconderijo, daquilo que no mundo da popularidade é proibido.

O amor aceita as pessoas como são, não como elas tentam ser. Não se pode enganar o coração, é o único de sabe de todas as verdades.